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Clélia Stephanie

Blog pessoal, sobre uma vida e uma cozinha igual a tantas outras, mas diferente... por ser a minha, e por ser temperada com muito amor!

Clélia Stephanie

Blog pessoal, sobre uma vida e uma cozinha igual a tantas outras, mas diferente... por ser a minha, e por ser temperada com muito amor!

Temperos da minha vida #1

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Acho que nunca vos confidenciei a razão que me levou a criar este Blog, talvez porque não existe nenhuma razão evidente para o ter feito, ou porque continuo a não acreditar que este pode ter sido o meu refúgio quando paladares mais amargos dominavam a minha paleta de sabores.

 

Hesitei, hesitei muito ao escrever este texto, comecei a escrever, parei, retomei, e hoje decidi terminar a primeira parte deste episódio da minha vida e pública-la. Não é nada de outro mundo, claro que não, mas faz-me reviver momentos que preferia não ter vivido, ou pelo menos que estes não se mostrassem tão penosos como foram, mas também o que seria das rosas sem os espinhos? Hoje é assim que encaro isto.

 

Posso dizer que vivi um sonho (bem real) do final de 2014 ao início de 2016, vivi mesmo das fases mais felizes da minha vida: fui pedida em casamento, passei a estar mais próxima de quem amo, viajei imenso, celebrei contratos, idealizei novos projetos, casei e até engravidei. Os pedidos de casamento tal como já referi (aqui) tiveram para mim um significado enorme, não só por toda a emoção que estes momentos acarretam, mas porque estava rodeada de pessoas que amo muito e que me amam incondicionalmente. Organizar tudo para os três casamentos ao lado do meu hoje marido foi maravilhoso, acho que nunca tínhamos estado tão sobrecarregados e assoberbados de compromissos (profissionais e pessoais), mas nunca o cansaço nos impediu de namorar e aproveitar cada sítio, cada momento, e nos entregarmos um ao outro vivendo todo aquele amor de forma tão intensa e fugaz. Uns meses antes de concluirmos esta etapa da nossa vida que nos remete para um mundo completamente à parte, onde tudo parece quase perfeito, descobrimos que a última celebração do nosso amor, desta vez na igreja, não iria ser feita a dois mais sim a três, sim, estava grávida, e aquilo caiu melhor que a cereja no topo do bolo, agora sim tudo estava perfeito. O nosso amor, a celebração do nosso amor e o fruto do nosso amor.  

 

Confesso que a notícia da gravidez foi um bocado inesperada, não porque não o desejasse, sempre quis ser mãe, sempre tive a certeza disso, e por consequência decidi construir a minha vida ao lado de uma pessoa que tem o mesmo desejo e certeza, por isto, isso não seria uma realidade que estivesse longe dado que caminhávamos nessa direção de mão dadas, só não esperávamos que fosse tão rápido. Acho que se ouve tanta coisa por aí que o que na minha cabeça era biologicamente impossível, porque o corpo tem que se adaptar e predispor a essa nova condição, tal acontecer de um mês para o outro era bárbaro, mas na realidade aconteceu mesmo, e sim o teste era mesmo positivo, por mais que equacionasse várias hipóteses daquilo não estar correto.

 

A notícia que ia ser mãe apanha-me completamente sem noção nenhuma do que era isto da maternidade, tenho alguma experiência adquirida por ser doida por crianças e assumir o papel de mãe (sempre que me confiam a missão) da canalha toda da minha família, mas quando nos toca a nós diretamente o caso muda de figura, começamos a questionar-nos se de facto estamos à altura do desafio que a natureza humana nos deu o prazer de experienciar e se daí sairemos vencedores. Para terem uma ideia a ficha do Tripeiro só caiu uma semana depois, quando depois de já ter chegado à conclusão que ele estava muito despreocupado relativamente à condição de ser pai ele me pergunta: “ amor vamos mesmo ser pais?”, como se só naquele momento tudo tivesse ficado claro na sua cabeça.

 

 O feijão, forma como sempre o tratamos, estava lá e o meu organismo reagiu lindamente a este novo hospede, todos os riscos inerentes a uma mulher grávida e tudo o que essa condição acarreta parecia estar controlado, o bebé estava a crescer lindamente, saudável e com o seu desenvolvimento de acordo com os parâmetros normais. Sempre me disseram que gravidez não é doença, e por isso levava a minha vida de forma completamente despreocupada, seguindo indicações médicas, mas sem grandes restrições uma vez que estas também não me tinham sido impostas. Viajei até Luanda, celebramos o casamente religioso, usufruímos da festa, da terceira lua-de-mel (mesmo sem sair da cidade), e aproveitamos tudo o que a quadra natalícia nos proporcionara, regressamos a Portugal e tinha para mim que era hora de parar, era hora de descansar de um ano tão atarefado e desfrutar da maternidade.

 

Muito amor, muito carinho, e muito mimo, tudo aquilo que uma mulher grávida deseja, e eis que às 19 semanas de gestação acordamos do sonho. Decidimos fazer uma viagem até ao Porto para estarmos com os futuros avós paternos, e com amigos que estavam desejosos de saber como tinha corrido o último casamento, e mal chegamos senti que algo não estava bem. Nas últimas semanas já sentia borboletas na barriga, como se alguém estivesse a fazer bailado dentro de mim, mas naquele dia era diferente, sentia como se do bailado tivéssemos passado para uma espécie de sapateado brusco e inquietante. Passei a noite em claro, desejosa que amanhecesse e que pudesse voltar para Coimbra e ir direto para a maternidade, sentia que me devia deslocar ao sítio onde estava a ser seguida desde o início, mas já não fomos a tempo.

 

Era de manhã, e o que mais temia aconteceu, estava a perder sangue, pouco, mas era sangue, e algo me dizia que não era um bom sinal. 

 

Continua...